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Vazios
como estamos, nos é impossível olhar para um objeto
sem anexá-lo à nossa coleção. Não temos uma única
cadeira, por exemplo, no âmbito e na memória de
nossa retina que não possua uma etiqueta; se, no
espaço de uma semana, um homem trabalhando em
absoluto segredo viesse a produzir cadeiras únicas
e irreconhecíveis, o mundo enlouqueceria. E no
entanto cada cadeira que é criada está gritando
para ser reconhecida como cadeira, como cadeira de
direito, singular e perdurável.
Penso em cadeira porque entre todos os objetos que Brassaï fotografou sua cadeira de pernas metálicas destaca-se como uma majestade que é singular e inquietante. É uma cadeira da mais baixa categoria, uma cadeira que foi usada por mendigos e por nobres, por prostitutazinhas de trottoir e por imponentes divas do canto lírico. É uma cadeira que a municipalidade aluga diariamente a quem queira pagar cinqüenta centavos para se sentar ao ar livre. Uma cadeira com furinhos no assento e pernas metálicas que se fecham em arco em baixo. A mais despretensiosa, a mais barata, a mais ridícula das cadeiras - se é que uma cadeira pode ser ridícula - que é possível imaginar. Brassaï escolheu precisamentente essa cadeira insignificante e, fotografando-a onde a encontrou, extraiu o que tinha de digno e veraz. ISTO É UMA CADEIRA. Nada mais.
Penso em cadeira porque entre todos os objetos que Brassaï fotografou sua cadeira de pernas metálicas destaca-se como uma majestade que é singular e inquietante. É uma cadeira da mais baixa categoria, uma cadeira que foi usada por mendigos e por nobres, por prostitutazinhas de trottoir e por imponentes divas do canto lírico. É uma cadeira que a municipalidade aluga diariamente a quem queira pagar cinqüenta centavos para se sentar ao ar livre. Uma cadeira com furinhos no assento e pernas metálicas que se fecham em arco em baixo. A mais despretensiosa, a mais barata, a mais ridícula das cadeiras - se é que uma cadeira pode ser ridícula - que é possível imaginar. Brassaï escolheu precisamentente essa cadeira insignificante e, fotografando-a onde a encontrou, extraiu o que tinha de digno e veraz. ISTO É UMA CADEIRA. Nada mais.
Nenhum
sentimentalismo sobre lindas nádegas que um dia a
adornaram, nenhum romantismo sobre os malucos que a
fabricaram, nenhuma estatística sobre as horas de
suor e aflição gastas em sua criação, nenhuma
ironia sobre a era que a produziu, nenhuma
comparação odiosa com cadeiras de outro tempo,
nenhuma impostura sobre os sonhos dos desocupadas
que a monopolizaram, nenhum desprezo sobre seu
despojamento, nenhuma gratidão tampouco.
Passeando um dia pelos caminhos do Jardin des Tuileries ele viu essa cadeira próxima a um gradil. Viu ao mesmo tempo cadeira, gradil, árvore, nuvens, sol, gente. Percebeu que aquela cadeira fazia parte daquele belo dia de primavera tanto quanto a árvore, as nuvens, o sol, as pessoas. Fotografou-a como era, com seus furinhos honestos, suas pernas finas de metal. Talvez o príncipe de Gales tenha sentado nela um dia, talvez um homem santo, talvez um leproso, talvez um assassino ou um idiota. Quem sentara nela não interessou nem um pouco a Brassaï. Era um dia primaveril e a folhagem estava rebrotando; a terra fervilhava, as raízes convulsionavam-se de seiva. Num dia desses, se a pessoa está viva, pode bem imaginar que do corpo inerte da terra surgirá uma raça de homens imortais em seu esplendor. Num dias desses é visível no mais gasto dos objetos uma promessa, uma esperança, uma possibilidade. Nada está morto exceto na imaginação. Animados ou inanimados, todos os corpos sob o sol manifestam sua vitalidade. Especialmente num claro dia de primavera.
E assim, naquele dia, naquela hora de glória, a feia e barata cadeira da municipalidade de Paris tornou-se o trono vazio que está sempre suplicando ao espírito inquieto do homem que ponha fim aos seus temores e ansiedades e anuncie o reino do Homem."
Passeando um dia pelos caminhos do Jardin des Tuileries ele viu essa cadeira próxima a um gradil. Viu ao mesmo tempo cadeira, gradil, árvore, nuvens, sol, gente. Percebeu que aquela cadeira fazia parte daquele belo dia de primavera tanto quanto a árvore, as nuvens, o sol, as pessoas. Fotografou-a como era, com seus furinhos honestos, suas pernas finas de metal. Talvez o príncipe de Gales tenha sentado nela um dia, talvez um homem santo, talvez um leproso, talvez um assassino ou um idiota. Quem sentara nela não interessou nem um pouco a Brassaï. Era um dia primaveril e a folhagem estava rebrotando; a terra fervilhava, as raízes convulsionavam-se de seiva. Num dia desses, se a pessoa está viva, pode bem imaginar que do corpo inerte da terra surgirá uma raça de homens imortais em seu esplendor. Num dias desses é visível no mais gasto dos objetos uma promessa, uma esperança, uma possibilidade. Nada está morto exceto na imaginação. Animados ou inanimados, todos os corpos sob o sol manifestam sua vitalidade. Especialmente num claro dia de primavera.
E assim, naquele dia, naquela hora de glória, a feia e barata cadeira da municipalidade de Paris tornou-se o trono vazio que está sempre suplicando ao espírito inquieto do homem que ponha fim aos seus temores e ansiedades e anuncie o reino do Homem."
